Eu não fiz nada pelo Negrinho do Pastoreio

Os privilégios e a força de ir além de percebê-los

São tantos assuntos imprescindíveis de serem tocados. Tudo é muito importante, não dá para ter lugar de fala e desperdiçar a oportunidade falando sobre trivialidades. Por isso é que falam que as feministas são muito chatas, e que pra nós “tudo é racismo”. As trivialidades, no entanto, desvendam os mistérios do complexo. É comum ser pobre. Nada pode ser mais trivial que não ter dinheiro. Esse assunto, de repente, rende uma grande teoria filosófica sobre colonialidades, bem ali, naquele café da manhã. 
Em nossa família somos também especialistas em trivialidades: a mãe, Íris, eu, e minhas irmãs Jacqueline e Áurea. Os causos nos trazem muitas referências. Lembro da terrível história do Negrinho do Pastoreio, primeiro conto que me fez chorar. Eu tinha uns 5, 6 anos. Por causa desse conto, todas as vezes que eu ouvia O Menino da Porteira eu chorava também. Na minha cabeça, o menino da porteira era aquele do pastoreio, e ele era negro, pobre, sofrido, e morria ainda criança. Em ambas as histórias, os meninos morrem de ataques de animais: as formigas e o boi. Eu, todavia, sempre senti que o que matou aquelas crianças era o fato de elas serem pretas e pobres. Não cabia que aquelas crianças fossem como as crianças das novelas, do Balão Mágico, do programa da Xuxa, da Turma da Mônica. Dava uma dor... Me vinha à mente como eles poderiam fugir. Os heróis que eu conhecia que se pareciam com eles eram do filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”, com a imagem daquele garotinho colocando a casca de árvore sobre a cabeça para que as hienas não o atacassem. Eu queria aprender jeitos de não ver as crianças pretas morrerem na metáfora dos animais impiedosos. 
(...)
Esses dias, fizemos aquele teste “Qual Personagem de Pantera Negra Você É”, o que me rendeu uma longa reflexão. No teste, deu que sou a Shuri. Inicialmente fiquei toda feliz. Faz muito sentido, Shuri é a irmã engraçada do rei de Wakanda, aquela que é sassy, muito inteligente, tecnológica e leal. Aposto que a Shuri é aquariana também. Estar em Wakanda, entretanto, é um conforto: é estar isolada da maldade que acontece lá fora, só reagir quando for atacada. Já existem desafios e conflitos suficientes dentro de Wakanda, e o sistema ali funciona a favor de Shuri. Apesar de haver conflitos e de o papel político da família ser essencial na gestão do reino de Wakanda, a posição monárquica é privilegiada em vários aspectos. Nunca fui da realeza como a Shuri, mas carrego diversos privilégios. E, como é de se esperar, é difícil reconhecer os próprios privilégios para ir além deles, para superá-los. A guerra que acontece no mundo só chega em Wakanda porque não dá pra viver protegido pela terra sagrada e ignorar que o mal avança do outro lado. Essa guerra já desolou toda a gente, não há como Wakanda manter-se neutra diante de toda tragédia. Enquanto houver um miserável, toda a humanidade estará adoecida. 

Como disse o Djonga,
“Enquanto alguém for escravo, nenhum de nós é livre
E dessa aí eu me livrei por pouco, 
Eu me levei pro topo 
Onde poetas mentem” 

Áurea, no teste, é Erik, o anti-herói que, após ver o pai ser assassinado pelo rei, passa a vida buscando ser o melhor guerreiro para assumir o trono de Wakanda e vingar todas as vítimas do império americano, do genocídio do povo preto. A sua vida foi tão sofrida, foram tantas violências que, no drama Fanoniano, Erik se torna mestre nas habilidades do opressor e consegue causar um colapso nos dois sistemas mais fortes da narrativa: o império americano e o reino de Wakanda. Negligenciado por Wakanda, Erik evidencia que o paraíso é frágil e que as pessoas dentro dele não conseguem perceber o que vem acontecendo lá fora, que seus irmãos estão sendo mortos em uma guerra sem fim. Forjado vilão pela intolerância e violência do império americano, o anti-herói aprende a usar as armas do opressor para fazer justiça a qualquer custo. Ele queria vingar África. Erik é indiscutivelmente a personagem mais emblemática da trama, porque desafia as lições do trauma e do ódio e da acomodação dos privilégios. Chama o foco para as consequências multidimensionais dessas violências da construção do ser. Pensei que Áurea seria o rei T’Challa, pela sua exuberante capacidade de ser e viver política, pela sua postura firme e plena, e pela capacidade de mandar seu recado onde quer que esteja. Mas eu me enganei, Áurea nunca foi treinada para ser rainha, ela é assim porque sabe que tem uma missão, que, para além de seus privilégios e traumas, se dispõe a desafiar os impérios. Ao contrário de Erik, Áurea volta-se às sabedorias do povo para avançar com as lutas. Ela tampouco quer tomar o poder, mas fazer parte do poder que tem as lutas populares. A metáfora é válida: as violências se dão pela ação dos maus e pela omissão dos bons. Áurea provoca ambos.
...
O cotidiano é lento e profundo. As trivialidades tornam-se referências, e são a vida. Há tantas sutilezas que as fazem também transformadoras. 

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