Irracional
É intrigante como a modernidade
eurocentrista, dita era da racionalidade, é a era da tomada de territórios e destruição
das histórias, identidades, tradições, corpos e ontologias dos povos não
europeus. Compassada à imposição do sistema de comoditização transnacional, a
modernidade elevou seus ícones ao patamar de deuses, e fê-los dever-ser. A ética moderna é de morte e
destruição – o que é racional.
A racionalidade é a capacidade de,
conscientemente, manipular a necessidade de justificar e legitimar destruição. Do
poder do príncipe é deflagrada a
racionalidade, donde se há de julgar quem deve viver e morrer. Da racionalidade
é deflagrada a civilidade, que se torna a única forma de ser.
Os animais e suas complexas sociedades,
todavia, são irracionais, como eram os povos ameríndios e suas complexas sociedades
antes da chegada da destruição de tudo. As plantas, os fungos, a água, o ar e a
terra são irracionais. Para a racionalidade, a montanha, o rio ou a caverna não
têm vida, e podem assim servir a qualquer vontade.
A racionalidade ambiciona métodos
para explicar tudo – separa o que existe e o que não existe na arrogância mórbida
de quem necessita ter autoria sobre a existência. Como uma tolice embaraçosa, a
racionalidade é frágil como a afirmação de que tudo tem uma explicação.
Eu, irracional que sou, anseio a próxima
era, o juízo final, a era de Aquarius. A racionalidade me faz todo sentido: o método
científico e a instrumentalidade das leis não melhoram em nada a vida das
pessoas no planeta, e quando alguém ousa discordar, aplicam tal método científico
e tal instrumentalidade das leis para manufaturar armamentos e fazer guerra.
A racionalidade é compreensível,
mas a existência não. É por isso que sinto como se a era da razão só persevera
porque é compreensível. Isso é uma armadilha. A modernidade é uma cilada do ego
por breves satisfações durante o breve tempo de vida na crosta. Essa é a
satisfação da farsa da compreensão da existência, a brisa da racionalidade. É
também a legitimação do poder institucional sobre as pessoas e os territórios.
A existência precede a razão, sorry Descartes. O diálogo e o convívio
precedem a razão. A planta que brota e a chuva que cai precedem a razão. Tudo
existe, independentemente da razão. Manufaturar explicações, legitimidades e
consentimento são tarefas da racionalidade, mesmo que se negue.
Daqui, eu aquariana com ascendente
em peixes, sonho um mundo irracional – não pós-moderno, ou pós-racional, porque
essas são explicações da existência. Quanto mais explicada a necessidade do
sacrifício, mais se perpetuam as violências.
Vamos ser irracionais, como as
formigas, o mel, a lua e os gatinhos filhotes. Irracionais como o cheiro da
floresta após a chuva. Irracionais como as necessidades do ego. Irracionais ao
ponto de humanos não mais se considerarem superiores aos demais ocupantes do
planeta.
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